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Texto resgatado de 2010.

Eu viajo só. Completamente natural. E, quando viaja-se só, tudo o que fazes é, o que? Só! Inclusive sair pra jantar sozinha.

Quando fui à Atenas, tive a sorte de ficar no melhor hotel da cidade por trabalhar na mesma cadeia e pagar quase nada por uma suite absurda. E com isso, tive o serviço de mordomo. Logo, ele me indicou um restaurante super funky, trendy, cool da cidade.

Chegando ao local, me vi com duas opções: Me fazer de cool e esquecer toda a vergonha de chegar sozinha, ou então, assumir logo todo o embaraço que chegar sozinha num lugar lotado traz e falar: antes de mais nada, me traz um drink pra apaziguar essa vermelhidão nessas bochechas enormes que tenho?

Mas preciso informar que o rosado no rosto é fruto de algum tempo sem viajar sozinha ou então de marinheiros de primeira viagem.  Depois da quarta saída pra jantar sozinha tudo vira festa. Já chegas rindo e premeditando situações. Funny, at least.

Antes de sair do hotel, perguntei ao Buttler sobre um tal bairro e ele me disse: You won’t like this place. It’s heavy, old and a lot of greek dancing. Only Greek music. Eu disse. Mas é a inserção na cultura que quero! No momento não sei se ele teve algum “pré-conceito” contra mim, tipo: essa índia cheia de pena nas orelha não vai curtir o clima local.

Fui direto ao restaurante que ele me indicou, em Gazi. “For sure you’ll like it. It’s trendy!”. Tsc tsc.

Chegando ao Mamaca’s… Senta fora, dentro? Onde é melhor? Tás sozinha? Sim, estou. Ahhh! Uma pessoa só?!?

Silencio.

jantando sozinha na grécia
Eu e eu: e sempre com meu caderninho de anotações.

 

As pessoas ainda sentem um desconforto muito grande quando eu falo que viajo sozinha. Só elas, porque eu, sinceramente, adoro. Depois da primeira vez, vira vício. Um encontro com si mesmo e com tua própria essência.

Sempre digo a mim mesma que tenho que ter algum aliado quando saio pra jantar só e não me sentir desconfortável com tantos olhares de pena ou até de curiosidade alheia. O jantar pode te inibir. Não a comida em si, mas o ambiente em que estás. Ainda mais se for numa cidade que acabas de chegar e que nem falas o idioma deles.

Há pessoas que já possuem um aliado intrínseco: a observação. Os observadores não precisam de mais nada. É tão natural observar que o olhar vira a tua melhor companhia. Minha melhor companhia é outra; ou melhor, são outras: o papel e a caneta. Escrever e, assim, descrever, me comove. E me sinto totalmente à vontade com a caneta na mão.

Eu admito que para os outros deve ser um tanto estranho ver uma mulher chegando a um restaurante com sua caderneta na mão. E bem vestida, arrumada – e digo isso do fundo do coração porque capricho em cada detalhe antes de sair, afinal, estou indo para um encontro com a pessoa mais importante da minha vida: eu!

E alternando, claro, entre a observadora e a iniciante a escritora. Escrevo: Observo. Escrevo mais. Deixo a caneta de lado. Observo as gentes passearem, olharem. Serem.
E nesse observa-escreve, converso comigo mesma com palavras escritas à meia-luz; aproveito cada segundo do jantar e aprecio as horas que dediquei à mim.

Fotos mal tiradas, mas quem se importa? Uma das coisas arriscadas quando viajamos sozinhas, hehe.

 

Eu e o garçon que, no final, ainda me indicou para onde ir depois.